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Abuso Sexual

Especialista fala sobre as conseqüências dessa violência e dá instruções de como agir nesses casos
- Thaís Pontes

“Eu tinha 12 anos quando tudo começou. Eu e minha mãe tivemos que passar um tempo na casa dele porque estávamos meio sem grana. Ele colocava uma toalha na minha boca para eu não gritar. Às vezes ele usava o condicionador. Disse que se eu contasse pra alguém, ele expulsaria eu e minha mãe de lá, mas nós não tínhamos pra onde ir”. Esse é o relato de Renata*, 17 anos, que foi abusada sexualmente por quase três anos pelo próprio tio, cerca de trinta anos mais velho que ela.

A garota nunca teve coragem de contar à mãe o que acontecia. “Ela é muito conservadora, ia acabar ficando brava comigo também. Além do que, não tinhamos pra onde ir e ela era muito grata ao irmão por nos 'acolher'”, revelou. Ela só se viu livre do problema com a morte do tio, que teve um infarto. “Quando ele morreu, eu me senti mal, pode acreditar. Me senti culpada, pois desejava a morte dele todos os dias. Mas depois passou”.
Por causa do trauma que pegou do condicionador (usado como lubrificante quando era estuprada), Renata cortou o cabelo estilo joãozinho: “É melhor porque não precisa passar creme. Eu não suporto”, desabafa. E não foi só no visual que o abuso deixou marcas. Ela não consegue se concentrar nos estudos (chegou até a repetir duas vezes o mesmo ano), não se interessa por nenhum garoto e se acha um peixe fora d’água: “Eu nunca vou conseguir ser uma menina normal”.

O caso de Renata é mais comum do que se imagina. Muitas garotas passam por isso, não têm coragem de contar a ninguém e sofrem sozinhas. Pai, irmão mais velho, tio... Os responsáveis pela violência com as meninas variam. A redação do iGirl freqüentemente recebe e-mails pedindo ajuda. Por isso, falamos com a psicóloga Ana Cristina Caldeira, especialista no assunto, para dar às meninas as informações necessárias:

Quais os principais danos psicológicos a uma garota que sofre abuso sexual?
“É certo que existem conseqüências negativas no âmbito psicológico, social e até físico quando uma garota é vítima de assédio ou abuso sexual. Estas podem variar de acordo com a idade da criança ou adolescente, a gravidade do ato em si, a freqüência com que acontece ou aconteceu a situação, entre outros fatores...

Os efeitos psicológicos mais freqüentes são: explosões de raiva em situações diversas, queda no rendimento escolar, baixa capacidade de confiança em outras pessoas, isolamento, distúrbios do sono, sintomas psicossomáticos ou depressão, comportamentos considerados promíscuos, entre outros. Estes sintomas isolados servem para alertar que algo não está bem, mas quando aparecem somados, podem evidenciar que a pessoa está sendo vítima de algum tipo de violência sexual”.

Como e para quem a garota deve contar o problema?
“É bom lembrar que o silêncio é cúmplice da violência, portanto, é muito importante não guardar para si esta situação ou tentar resolver sozinha (na maioria das vezes isso é muito difícil e custoso). Qualquer pessoa que seja vítima de assédio ou abuso sexual pode e merece receber apoio para acabar com a violência e resgatar o seu bem estar físico e emocional.

A adolescente pode tentar conversar com alguém de sua confiança: os pais, algum familiar próximo, um professor, coordenador pedagógico, outros profissionais da escola que transmitam segurança ou um médico que a garota tenha fácil acesso.

Porém, infelizmente, podem-se encontrar pessoas que estão mal preparadas para lidar com estas situações. Se não houver ninguém de confiança nesse meio, é recomendável buscar a ajuda de profissionais e instituições especializadas nesse assunto. Nesses locais a adolescente será acolhida e orientada para encontrar a melhor forma de agir e proteger-se conforme a especificidade de sua história.

Embora não seja muito conhecida, existe uma rede de serviços no município de São Paulo voltados ao atendimento de crianças e mulheres vítimas de assédio, abuso sexual, bem como, outras formas de violência. Estes serviços variam desde abrigos que acolhem mulheres com seus filhos, garantindo assim sua segurança em situações de violência doméstica, até locais que prestam assistência jurídica, psicológica e de saúde a crianças e adolescentes de ambos os sexos”.

Orientações básicas e atendimento podem ser conseguidos nas seguintes instituições:

SOS – Serviço de Orientação à Saúde
Atividade: orientação e encaminhamento jurídico, psicológico e serviço social.
Tel.: 3031-2321

Casa Sofia
Atividades: orientação e encaminhamento jurídico, psicológico, serviço social a mulheres vítimas de violência doméstica.
Tel.: 0800 770 3053

Disque Denúncia – Violência contra a Mulher
Tel.: 180 (ligação gratuita)

Casa da Mulher Domingos Deláscio
Unifesp – Universidade Federal de São Paulo
Atividades: atendimento ginecológico, apoio psicológico, social, orientação e assistência jurídica, assistência à gestação de alto risco (adolescentes e adultas)
Tel: 5084-4997
e-mail: violênciasexual@epm.br

Serviço de Atenção Integral à Mulher em Situação de Violência Sexual
Hospital Pérola Byington
Atividades: acompanhamento médico, psicológico e social; contracepção de emergência; aborto legal e profilaxia de DST/Aids
Tel.: 3242-3433 R: 344
e-mail: hospitalperola@ig.com.br

PAVAS – Programa de Atenção à Violência Sesual
CSE Geraldo de Paula Souza – FSP/USP
Atividade: atendimento médico
Tel.: 3066-7726/ 3066-7721
e-mail: pavas@usp.br

CNRVV – Centro de Referência às Vítimas de Violência
Instituto Sedes Sapientiae
Atividades: acompanhamento psiquiátrico, grupos de prevenção de violência, cursos de formação.
Tel.: 3866-2756/ 3866-2757
e-mail: cnrvv@sedes.org.br

SOSEX – Instituto Kaplan
Atividades: atendimento e orientação a casos voltados à sexualidade
Tel.: 5505-4434

A garota assediada, no futuro, vai conseguir se relacionar normalmente com outras pessoas? É possível superar esse trauma?
“Felizmente, muitas vezes nos surpreendemos com a garra e a coragem que as pessoas demonstram para superar as marcas deixadas pela vivência de uma situação traumática. Como esta superação acontece é uma questão bem particular e varia de pessoa para pessoa. Por isso acredito que é possível sim, principalmente com a ajuda de profissionais qualificados que a acompanharão nesse processo de superação dos possíveis traumas deixados por uma situação de assédio/abuso sexual.

O acompanhamento psicológico é fundamental para que as adolescentes consigam desenvolver um processo de autoconhecimento para recuperar a auto-imagem e auto-estima muitas vezes abaladas. Desta forma, a adolescente poderá estabelecer novos relacionamentos interpessoais saudáveis.

Acredito que, se na nossa sociedade, unirmos boas condições de desenvolvimento psico-social das nossas crianças e adolescentes a mecanismos sociais eficazes de prevenção e repressão da violência física e moral, poderemos reduzir, e muito, os casos de assédio/abuso sexual”.

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Ana Cristina Caldeira é psicóloga formada pela USP, com especialização em Psicodrama, Professora Universitária e Psicoterapeuta de Crianças, Adolescentes e Adultos

*O nome da personagem foi trocado para preservar sua identidade
 

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